Artigo: Branquitude e mercado cervejeiro

Texto escrito pelo associado Arthur Steckelberg,
publicado no Cinema e Cerveja

Entrei no mercado cervejeiro há pouco tempo — fiz meu curso de sommelier de cervejas em 2017, na famosa Blumenau. Ainda não me sentia confortável em denominar-me “sommelier”, pois aprendi bem no curso que é a prática, não um título, o que nos torna “sommeliers” ou mesmo “cervejeiros”. Pouco depois, tornei-me bartender e gerente do Quiosque Colombina, iniciando minha jornada profissional no mercado cervejeiro artesanal. Atualmente, colaboro nos projetos Beba Goiás/Cinema e Cerveja e Uma Cerveja por Dia; desenvolvo um projeto de pesquisa acadêmica sobre a semiótica do sabor e componho a gestão 2020–2022 da Abracerva/GO.

Sempre me senti representado pelo mercado cervejeiro, mesmo antes de atuar profissionalmente: meu pai já fazia cerveja em casa desde que eu era criança; todo fim de ano, barris e mais barris de cerveja eram consumidos nas festas de família (Donizete e o pessoal da Klaro de Anápolis que lhes digam sobre os famigerados Steckelbergs); aprendi a beber IPA quando a Heineken era “muito amarga” (embora nunca tenha me achado “mui macho” por isso); e, finalmente, sempre senti quase uma “obrigação” (deliciosa e conveniente) em gostar de cerveja por ser de descendência alemã — em Blumenau, chegaram a me falar que parecia mais “gaúcho” que muita gente lá, em Santa Catarina. Ademais, talvez por ser um protótipo do cervejeiro artesanal nesse país, minha tímida presença aparentemente nunca incomodou ninguém (o que não é o caso de muitos profissionais de altíssimo grau em nosso meio, especialmente mulheres).

Nunca recebi “olhares tortos”. Nunca sofri assédio. Meu corpo nunca é politicamente marcado em nenhuma conversa, nenhum comentário (não sou “cervejeiro branco”, nem “cervejeiro homem” ou “cervejeiro hétero”, sou apenas “cervejeiro”). Lamentável vivermos um tempo em que ainda fazemos tal marcação sobre os corpos que fogem de um determinado padrão estabelecido. Um padrão que, embora naturalizado, nada tem de “natural” — é socialmente construído e, assim, deve ser constantemente reformado e repensado. Para muitos, especialmente homens brancos e heterossexuais, estruturas como o racismo e o machismo inexistem, pois seriam apenas “casos isolados” ou nada disso teria a ver comigo, que sou um “bom homem branco”. Especialmente para esses, quero trazer aqui uma discussão sobre branquitude.

Anúncios

“Entender a branquitude e reconhecê-la como um privilégio inerente é o primeiro passo para mudarmos a situação”

De acordo com o Portal Geledés, “a branquitude é um lugar de privilégios simbólicos, subjetivos, objetivo, isto é, materiais palpáveis que colaboram para construção social e reprodução do preconceito racial, discriminação racial ‘injusta’ e racismo”. Em outras palavras, minha história pessoal é recheada de branquitudes: sou descendente de europeus por parte de pai e de mãe; atuo em um mercado ainda majoritariamente branco; sempre estudei em escolas particulares ou universidades de ponta, cuja maioria dos alunos é branca; e por aí vai…

Convido o leitor a prestar mais atenção nos ambientes que o cercam. Por exemplo, aquele restaurante “chique”: normalmente, quem serve e quem é servido? Em uma cervejaria, quem são os donos e quem são os funcionários? Enfim, de modo geral, quem ocupa posições hierárquicas superiores e quem ocupa as inferiores? Basta um pouquinho mais de atenção e pensamento crítico em nosso dia a dia para percebermos, enfim, o abismo que separa nossa conjuntura atual de uma sociedade justa.

Entender a branquitude e reconhecê-la como um privilégio inerente é o primeiro passo para mudarmos a situação. “Branquitude” é um termo recentemente cunhado e ainda carece muita discussão até que tenhamos uma noção real e mais palpável do que seria. Este vem em oposição a “negritude”, que seria, grosso modo, “a condição de ser negro ou o sentimento de pertença a esse grupo”. Pela história de ambas etnias, percebe-se que a “branquitude” denota privilégios e a “negritude” denota obstáculos. Sim, brancos e europeus também foram escravizados ao longo da história; mas essa é uma questão que vai muito além da escravidão, que por si só é uma tragédia. É, acima de tudo, uma questão simbólica. Tanto é verdade que “negritude” já é um termo dicionarizado e “branquitude” não (nem o Microsoft Word nem o Dicionário Houaiss reconhecem o termo ainda). Isso mostra o quanto a “branquitude” como condição social e ontológica é pouco discutida e muito ignorada até mesmo em meios “desconstruidões”.

Não se trata de escolha: se você é branco, você performa branquitude. Reconhecido isto, o próximo passo é identificar o tipo que você performa. Existem ao menos dois tipos: a branquitude crítica e a branquitude acrítica. Desaprovar comportamentos racistas (por mais “inofensivos” que pareçam) e manifestar-se publicamente contra o racismo, adotando uma postura antirracista, é posicionar-se de forma crítica frente ao problema. Não reconhecer sua condição privilegiada ou naturalizar a “superioridade” branca são exemplos de posicionamentos acríticos. Entenda que não é todo racista que legitima grupos extremistas como a Ku Klux Klan ou que afirma expressamente ser superior a outrem — muitas formas de racismo são praticadas inconscientemente e de forma “branda” (piadinhas, comentários de mal gosto etc.), o que não é menos nocivo para uma sociedade, em termos simbólicos.

“Ser ‘não racista’ já é um passo, mas ainda está aquém do desejável, que seria a postura antirracista — e cada um de nós precisa pensar melhor seu lugar na sociedade.”

Agora, pensemos um pouco sobre nosso mercado. Sabemos que se trata de um mercado majoritariamente branco e, por isso, inevitavelmente performa branquitude. Qual tipo tem sido performado por seus agentes? Salvo algumas exceções, o posicionamento acrítico é a regra geral. Não é raro encontrarmos grupinhos cervejeiros de WhatsApp compostos exclusivamente por homens, majoritariamente brancos (o que denota ainda uma postura acrítica frente ao machismo, outro problema seríssimo de nosso meio). Eu mesmo já participei de alguns, inclusive do famigerado “Cervejeiros Illuminati”, e acabei abandonando todos — só me arrependo mesmo de ter ficado calado e, assim, acabar performando posicionamentos acríticos; pois não parecia sensato confrontar “gigantes” do mercado em que pretendia atuar. Os últimos acontecimentos (como os ataques racistas à sommelière Sara Araujo), apesar de trágicos e indigeríveis, foram também um grande alívio; pois finalmente senti, pelas reações, que o mercado está amadurecendo e se humanizando — embora ainda haja muita luta pela frente. Para mantermos essas mudanças positivas, não é preciso promover ataques pessoais ou “cancelamento” geral a todos os envolvidos nos escândalos recentes (afinal, são justamente essas as armas mais eficazes de fascistas de todas as estirpes). Todavia, devemos parar imediatamente com a “passação de pano” e começar a promover mais diálogos sobre questões sociais, assim como tem feito a Abracerva nacional ao instituir o Núcleo de Diversidade — infelizmente, um núcleo ainda desvalorizado e debochado por alguns inconvenientes. Tenha em mente sempre que fazer “vista grossa” é diferente de não promover ataques e que “justiceiros” frequentemente são injustos.

A branquitude, assim como a cisgeneridade ou a heteronormatividade, é um posicionamento político. “Não se posicionar” é também adotar uma posição, pois não existe política “neutra” (escolhemos um “lado”, embora nem sempre seja uma escolha binária como “direita” ou “esquerda”). Ser “não racista” já é um passo, mas ainda está aquém do desejável, que seria a postura antirracista — e cada um de nós precisa pensar melhor seu lugar na sociedade. O papel do branco frente ao racismo não é tentar ensiná-lo — é desaprendê-lo e, se possível, desensiná-lo ao próximo.

Saúde!

Deixe uma resposta